sábado, 7 de novembro de 2009
Melenas de azeviche
No azeviche de suas melenas, o herói sorveu uma gota de escuridão. Os pequenos feixes de luz que se derramavam do movimento iam abrindo frestas por dentro desta massa amorfa e carmim que lhe oferecera deitando-o a seus pés, para que pisasse com cuidado. E sob a tarde ensolarada, junho invernal, o amor se deteve por curtos intervalos de existência, pintando a cor das folhas, fez brincadeiras ao colo da inocência, eternizou-se justamente por já se ter acabado. Os olhos buscaram nuances de carícias, pernas que formavam dois pequenos corações abraçados, mãos que se crispavam no afã de tocar a superfície do sonho, e no seio daquela miragem, repousara a cabeça em um ângulo suave e confiante em que a verdade já não tinha mais importância; a imaginação vertia rios de ilusão sobre o homem deambulado. Foram pequenos matizes do céu a reluzir sobre a superfície furtiva da água, e nos calcanhares da deusa das espumas, surgiam pequenos centros de luz em movimento, onde setas compungidas altearam hinos a uma adoração. No fim, que havia de lucidez em tudo? Havia apenas o desenhista forjando garatujas em fios negros que adejavam ao sol. Assim, o guerreiro cansado volveu o olhar na direção de seu escudo, ergueu-o à altura do peito, calçou as sandálias, e com olhos fitos na despedida, viu voar para longe a fênix, os olhos perdidos no serpentear fugidio daquele Escamandro. Entre as nuvens salpicadas na imensidão celeste, um grito de desterro amainou em seu coração. Foi-lhe então segredado, nunca encontrarás deusas no ceu...
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